A comissão de seleção de curtas-metragens da primeira edição do Macacos Cine Fest, diante de 740 inscritos de todas as regiões do Brasil, vê-se diante de uma série de desafios e compromissos: como chegar a um território? Como construir ou abrir portas para a primeira edição de um festival de cinema? E, talvez a mais importante, como encontrar o ponto justo entre fazer um festival formativo e programar o que há de mais inventivo no curtametragismo contemporâneo?
É nesse equilíbrio, no ponto justo entre tais questões, que a comissão de seleção tem trabalhado sua programação. Se, por um lado, um festival formativo e em primeira edição impõe um trabalho imprescindível com o público e com o espectador, nossa aposta tem sido em formar um espectador emancipado, um olho livre que veja no cinema de invenção e nos filmes experimentais não apenas a possibilidade de se deparar com formas inventivas, mas também o convite à feitura fílmica que esses filmes trazem ao público.
Nesse sentido, o cinema de invenção surge como possibilidade de formação e de criar filmes diante de uma precariedade latente, mas com uma expertise que dribla suas limitações materiais. Se esse cinema foi, erroneamente, lido como filme “difícil” e que não dialoga com o público, apostamos aqui justamente no caminho oposto. Integrar filmes de formas irreverentes e que produzam um diálogo formativo com o espectador seja por meio de uma “simplicidade” na feitura, seja por filmes que busquem uma elaboração na sua invenção formal e ainda estejam ligados à realidade material, por seus diversos caminhos criativos.
Os curtas-metragens selecionados são construídos a partir da matéria bruta disponível para, em seguida, ultrapassar o sentido de materialidade per se. “Amanhã, quando nasci”, sessão de abertura da mostra competitiva, se organiza em um limiar. Ali, corpos se deslocam por espaços que já não obedecem inteiramente às leis do real. Em Noite Sem Ninguém, o trajeto é literal: um homem vagueia por ruas vazias, mas preenchidas tanto pela amplitude infinita do onírico quanto pela familiaridade do cotidiano. A mesma vigília insone reaparece, agora deslocada para dentro, em Enluarada. O filme constrói, num procedimento surrealista, a imersão no íntimo expandido da personagem enquanto ela é atravessada por manifestações de seu próprio subconsciente. Lucília se torna satélite natural de si mesma, orbitando os próprios estados (físicos e espirituais) e nos movendo com sua gravidade. Enquanto Enluarada mergulha para um interior particular, Como Nasce Um Rio embebe-se da paisagem. Ayla está rodeada por vegetação, água e pelo desejo de conhecer a Terra que a conduz também à sua própria raiz. Com Te Vejo na Próxima Saída do Boi, é a tradicional fugida dos Bois de Máscaras de São Caetano de Odivelas, no Pará, que embaralha o palpável e o encantado. O limiar está habitado, enfim, e para ele nos atraímos.
Como uma gangorra entre temporalidades, “Fizéramos tanto”, segundo programa da mostra, frequenta passado, presente e futuro em um só balanço. É tocando o solo, levantando poeira e encarando o céu que se movem os corpos fílmicos da sessão. Em Dentro do Meu Peito Mora um Cão, Josué caminha em uma terra de extração e risco iminente. Com ela, relaciona-se de forma oposta: escolhe confluir, sustentar e vislumbrar um futuro frutífero compartilhado. Em um gesto semelhante, as crianças de Entre Aulas, enquadradas pelas arestas das janelas de um casarão abandonado, exprimem pura vida vindoura, curiosa. Entendemos, junto às personagens, que na grandeza dos intervalos habitam fábulas e verdades infinitas. Pelo vidro da kombi, em Alvorada, Jorge atravessa Caxias e reconhece na paisagem as curvas de um amor brumoso, ferido e latente. Já Deu Praia é moldado pela idealização juvenil, em que o presente é capturado por uma visão que talvez jamais tenha ocorrido e jamais ocorrerá. Ridículas Cartas de Amor e Saudade fecha o programa com tangibilidade. No analógico do recorte de cartas e fotografias revisitadas, tem-se o amor que se guarda no pretérito – mas perfeito: aquele que foi exatamente como pôde ser.
Entre a vigília, o sono e o despertar, a fé permeia o caminho da terceira sessão como uma lava que irrompe do interior da terra para fora de seu manto e crosta. O percurso deste programa “Lava-me, Lava”, carrega de maneira morosa e violenta, certos traços da crença manifestados na religião e na sociedade. Seja por uma convicção, afastamento ou pela compreensão de sua relação imaginal. Com isso, iniciamos a sessão com dois filmes experimentais, Vigília Noturna e Ligação à Noite, que através da noite recebem e demonstram a fé de maneira insólita, insone e estranhamento estável. Na sequência, o da subida ao manto, os filmes Kakxop pahok: as crianças cegas e A Tragédia da Lobo-guará apresentam-se como fábulas agitadas, no qual o estatuto magmático da fé sobre o seu meio, demonstra-se agressivamente abalado. Até que por fim, a sessão é encerrada na catarse de Bom Fim, numa erupção que materializa a síntese explosiva desse conjunto denso, escuro e incandescente.
Porosa, a noite encobre diversas partes dessas sessões, ao ponto de permitir que o breu e a alvorada movimentem a relação entre os filmes dessa mostra. No quarto e último programa da mostra competitiva, “Os homens e à noite”, a noite se torna para além de meio, um convite à algo que está prestes a acontecer. Nesse porvir, o silêncio da noite amplia a sensorialidade do som e das ações, fazendo com que a noite seja tanto acontecimento, espaço de chegada e véu que desperta a sessão. Em Braço Forte, o porto noturno abriga a fala e a violência de seus trabalhadores numa fábula coral, onde a violência e a solidão iminente colidem com a mão estendida do outro. Por outro lado, em Windows 51, a distância física de uma janela evidencia a intimidade familiar construída ao longo de anos entre sobrinho e tio. E, separada por um terreno, uma janela e algumas latas de pinga. A alteridade é respeitada e levada a sério nessa exposição entre intimidade e distância. Já em Do Caldeirão da Santa Cruz do Deserto, o breu enreda o dia das paisagens pelas memórias de um movimento comunitário religioso do início do século XX, que se materializa nos restos revelados da filmagem de uma película vencida e comungada com músicas litúrgicas que evocam uma fantasmagoria e preenchem este corpo fílmico fantasmagórico. Dos trabalhadores vampirescos, aos fantasmas encarnados em famíliares e filmes vencidos, acompanhamos o corpo do Sr. Manoel em O Último Varredor que se inicia pela noite e se arrasta por restos que materializa e contextualiza o desgaste silencioso de catadores de grãos de soja que vivem das sobras e ganham os restos da cadeia produtiva do agronegócio.
A Sessão Especial é realizada em diálogo à temática da Mostra. Fincada nas porosas fronteiras entre a música, o cinema, a videoarte e os videoclipes. Os curtas exibidos produzem unem-se por meio de múltiplas manifestações da expressão sônica, mais até do que a música. O programa conta com Laguna Plena, CALL 01321 e Trivakra que formam uma espécie de tríptico em que traços delicados chocam-se com a experimentação jogando com o filme experimental e a instalação. Filme Lynch e ENCANTADOS: Caboclo de Pena, cada um a seu modo, trazem a composição sonora como uma dança junto às imagens em que uma não cria hierarquia sob a outra.
Portanto, apostamos nessa justeza: num festival que apresente as mais múltiplas possibilidades de fazer cinema e que, sobretudo, forme um espectador emancipado, de olhar livre para as obras. E, com isso, provoque o público a produzir suas próprias imagens e sons de maneira inventiva.