Mostra Temática

Ressonâncias e Ruídos

A primeira edição destaca o diálogo entre cinema e música como eixo da programação. A proposta parte da ideia de que o cinema é construído não apenas por imagens, mas também pelos sons, pelas trilhas e pelas atmosferas que dão vida às narrativas. Da mesma forma, a música também conta histórias, desperta emoções e cria memórias. Esse encontro entre imagem e som atravessa toda a programação do festival.

Ressonâncias e Ruídos

Na primeira edição do Macacos Cine Fest, a mostra temática propõe uma curadoria expandida que aproxima cinema, música e experimentações sonoras na mesma programação. Mais do que reunir diferentes linguagens, a proposta é criar espaços de encontro e escuta, em que imagens, sonoridades e comunidades possam se atravessar. É nesses atravessamentos que a mostra se inscreve, provocando acontecimentos e abrindo espaço para o surgimento de novas memórias.

Orientada pelas ideias de uma ressonância que se manifesta por meio de uma série de ruídos, a mostra parte da compreensão de que filmes, shows e performances emergem de “comunidades acústicas”, no sentido proposto por R. Murray Schafer: contextos em que paisagens sonoras, histórias, modos de vida e formas de perceber o mundo constituem uma escuta compartilhada. Desse modo, a programação acompanha o modo em que essas reverberações atravessam tempos, territórios e corpos, encontrando novas escutas e produzindo novas relações a partir dos filmes e da música.

Enquanto a ressonância é aquilo que persiste e se propaga pelo território, o ruído é o instante em que ela ganha uma forma singular. Cada um desses acontecimentos constitui uma irrupção particular dessas forças em circulação. O ruído emerge aqui como aquilo que interrompe o fluxo contínuo da reverberação para torná-la sensível e concreta, única.

É a partir desse entendimento que se coloca o desafio central desta curadoria: construir uma mostra que seja, ao mesmo tempo, formativa e inventiva, capaz de compartilhar referências e ampliar repertórios sem abrir mão da experimentação e da pluralidade de formas. Para isso, a programação encontra na música ou, de maneira mais ampla, nos sons um campo privilegiado de aproximação com o público, sem ceder às formas tradicionais de exibição pautadas pelo consumo massivo, pelas estéticas convencionais e pelos modelos culturais imperialistas. Nesse sentido, apostamos na soberania da experimentação, da invenção e da experiência humana como forças capazes de produzir outras formas de encontro, percepção e criação.

É também no movimento de aproximação entre cinema, música e experimentação que a primeira edição do Macacos Cine Fest apresenta um foco inédito na obra de Gabraz, intitulada O cinema em abismo. Composto por duas sessões, o foco percorre diferentes momentos de sua filmografia e evidencia a maneira como música, palavra, imagem e território se atravessam em um cinema que se reinventa a cada trabalho. Mais do que uma retrospectiva, a proposta é lançar um olhar sobre uma obra em permanente transformação, marcada pela experimentação formal e pela desobediência aos limites convencionais da linguagem cinematográfica.

Em outra frente, a programação apresenta Mosaico de rebeldia: a cultura de rua e as mulheres, que aproxima duas gerações do cinema documental dedicado à presença feminina na música e na cultura de rua. Em diálogo, Sou Feia Mas Tô na Moda (2004), de Denise Vieira, e a estreia de Essas Mina é Zika (2026), de Natacha Vassou e Lucas Espeto, revelam diferentes formas de criação, resistência e disputa por espaço, fazendo da música e da cultura urbana territórios de afirmação e transformação. Entre o funk carioca e o Hip Hop de Belo Horizonte, os filmes colocam em primeiro plano mulheres que fazem da arte uma forma de vida e encontram na criação musical um campo de autonomia, expressão e luta por reconhecimento.

Essa presença das mulheres na música encontra outra expressão em Apocalipse Segundo Baby (2026), de Rafael Saar. Ao se aproximar de Baby do Brasil, artista marcada por sucessivas reinvenções, o filme recusa a ideia de uma trajetória linear e acolhe as diferentes camadas  de uma vida em permanente transformação e de uma obra atravessada pela experimentação musical,  pela contracultura, pela espiritualidade e pela performance. 

Da celebração da música, a mostra se volta  para o próprio cinema em uma sessão especial trazendo Morte e Vida Madalena (2025), de Guto Parente. Entre o humor, o afeto e o absurdo, a obra revela o fazer cinematográfico como experiência coletiva, composta por conflitos e imprevistos. Ao incorporar o caos à própria criação, reafirma o cinema como lugar de invenção, liberdade e transformação. 

A programação também apresenta uma mostra competitiva de curtas-metragens com filmes realizados entre 2024 e 2026. Diante de quase 750 inscritos de todas as regiões do Brasil, a curadoria aposta na seleção entre invenção e formação com intuito de experimentar com as formas a apresentar um recorte irreverente e rebelde do cinema brasileiro contemporâneo. 

Desse modo, a programação da primeira edição do Macacos Cine Fest apresenta a música, a invenção e a experimentação sonora como possibilidade de criar uma comunidade ao redor dos filmes. Sob diferentes perspectivas, manifestamos o desejo em estar junto ao cinema e ao território. Caminhando lado a lado, o intuito é produzir memórias e acontecimentos que se prolonguem no tempo. Que as imagens e sons vibrem na tela e nos corações de cada um dos espectadores.

Curadoria

André DiFranco

André DiFranco

Cineasta, curador, produtor e educador, com formação em Antropologia pela UFMG e estudos em curadoria de cinema na Espanha e artes visuais na Alemanha. Seus filmes já foram exibidos em festivais e instituições no Brasil e no exterior. Em 2024, lançou seu primeiro longa-metragem documental, Palimpsesto. Também atua como curador e foi responsável pela idealização e coordenação do programa BH nas Telas, da Prefeitura de Belo Horizonte. 

Renan Eduardo

Renan Eduardo

Mestre em Comunicação Social pela UFMG e editor da Revista Descompasso, integra a Comissão de Seleção Nacional do FestCurtasBH desde 2024 e é curador do Festival de Cinema de Diamantina e do 3º Cine Lapinhô. Foi curador do estande “Mil e uma quebradas: o Capão Redondo sob as poéticas de Lincoln Péricles (LKT)” para a plataforma Spcine Play e da mostra “Os gestos de Narcisa Hirsch”.

Tamira Abreu

Tamira Abreu

Produtora cultural e audiovisual, fundadora da Produtora Nós da Fita, atuando há mais de 18 anos no setor cultural e audiovisual. Trabalhou em produções de longas e séries como Por um Triz, Entre Vênus e Marte, Essas Mina é Zica, Inhotim Arte e Presente, Minha Família É… e Ofício da Palavra.Idealizou e realiza o Cine Lapinhô – Festival de Cinema da Lapinha da Serra, a mostra de curtas CineBitaca e o projeto Cinema da Favela. Desde 2024, realiza a curadoria da mostra de curtas do Elas Festival.